O quintal aprazĂ­vel do artista

Um dos trabalhos de Espaço Edênico“No Jardim Botânico, então, fico exaurida. Tenho que tomar conta com o olhar de milhares de plantas e árvores e sobretudo da vitória-régia. Ela está lá. E eu a olho”, narra a personagem de Clarice Lispector no livro Água Viva, de 1973. A obra, que apresenta como num monólogo as aflições e alegrias de uma pintora, é uma das referências mais decisivas para a elaboração da exposição Espaço Edênico, que o artista plástico Eduardo Borges inaugura no próximo dia 11, às 20h, na Hiato – Ambiente de Arte. “Fiquei muito eufórico com aquela visão de vida”, revela Borges, que num movimento semelhante, tomou para si o cuidado e a atenção às plantas.

 
Há cerca de sete anos, quando transferiu-se para uma casa ampla e repleta de verde, Eduardo Borges estreitou relações com os jardins. Dois anos depois decidiu dedicar-se exclusivamente à sua arte, que até então era concebida em paralelo à profissão de desinger. O novo ritmo assumido, que demandava segundo ele “um novo olhar e muito mais calma”, foi tomado pela observação frequente aos pássaros e plantas que povoavam o próprio quintal, e pelas leituras que de alguma forma se relacionavam à botânica e à dinâmica e poética dos jardins.
 
Os onze trabalhos reunidos na mostra descortinam o universo de Borges, que resiste às tendências da arte contemporânea em retratar o urbano, e se debruça no próprio espaço que ocupa. “Essa exposição fala muito a meu respeito, principalmente dos meus gostos”, aponta o artista, que utiliza aquarela, tinta acrílica e grafite para retratar o Éden, cujos ares remontam à aspectos subjetivos ou não. “Eu quis ser coerente com as minhas necessidades”, explica a temática.
 
Composto por ilustrações científicas, aperfeiçoadas num curso feito no Jardim Botânico – o mesmo do livro Água Viva – o Espaço Edênico do artista reúne diversos elementos líricos, levando assim a um resultado híbrido e lúdico, que fortalece e enriquece sua pesquisa pelo eterno. “Eu não quero ver o fim das coisas. Quero ter a ideia perene das plantas”, afirma, para em seguida completar “O meu jardim não sou eu só”.
 
 
Mauro Morais