As boas chamas na arte

Cubo de Adriana LopesO fogo que destrói, devasta e desconstrói também serve à criação artística em inúmeras possibilidades. A exposição Arte do Fogo, cuja abertura será feita no próximo dia 6, às 20h, na Hiato – Ambiente de Arte, pretende mostrar as múltiplas formas da cerâmica, que tem no fogo o principio básico para a excelência dessa arte. A coletiva contará com os artistas Adriana Lopes, Júlia Vitral, Kátia Lopes, Norma Marchetto e Wagner Fortes.
Dos vasos aos quadros, a cerâmica é uma arte que se firma entre o erudito e o popular no universo plástico, visto que permite a confecção de materiais em diferentes suportes e linguagens diversas, desde o utilitário ao decorativo. “Temos uma amostra muito interessante da produção de cerâmica atual. Na cidade temos muitos talentos nessa área”, destaca Petrillo, artista plástico e coordenador da galeria.
Para a confecção da cerâmica é necessário modelar, aguardar a secagem, e em seguida levar a uma primeira queima, comumente chamada de biscoito. Feita em baixas temperaturas – que variam entre os profissionais, de acordo com o acabamento que pretendem dar a peça - essas queimas são feitas em fornos que podem ser construídos por meios de materiais variados tais como tijolos refratários, mantas cerâmicas, buracos no chão e até feitos de cupinzeiros, papéis ou folhas de bananeira. Como combustível Pode-se usar gás, lenha ou eletricidade, como combustíveis da queima.
Após resfriado o forno, a peça é preparada para uma segunda queima, desta vez para o acabamento da peça, seja a fim de se alcançar o vitrificado ou algum outro efeito. A segunda queima pode acontecer em baixa, média ou alta temperatura, o que depende do efeito da peça – utilitária ou artística. Há técnicas em que até uma terceira queima é efetuada ou, há panelas de cerâmica, pratos e filtros que podem nem mesmo passar pela segunda etapa. “A presença do fogo no processo é profundamente agressiva”, afirma Wagner Fortes, que desde 2004 trabalha com a técnica Raku, originariamente coreana, mas de consagração japonesa.
Numa linguagem não-convencional na cerâmica, Wagner preparou 16 pequenos quadros contendo releituras do artista suíço HR Giger. As serigrafias, que habitualmente são vistas em papel, ganharam a cena nos esmalte presente em placas de cerâmica. “O trabalho está denso. Tem muito apelo emotivo e visual. O Hrgiger tem um lado profundamente sensual e demoníaco, como o fogo”, revela Wagner. 
Afora o valor esotérico do fogo, a cerâmica tem um conteúdo natural de grande importância. “A cerâmica envolve história em primeiro lugar, física, química e até a biologia.” ressalta a artista Julia Vitral, que apresenta algumas peças sem esmalte e com queimas feita em fornos elétrico, a gás e a lenha, fruto de intensa pesquisa. “Eu não consigo entrar no ateliê sem ler, sem estudar. Eu tenho muitas referências e posso aí me perder. A peça me pede os caminhos que ela quer. Levo pelo menos duas horas para começar uma peça”, diz.
Completando o espectro múltiplo que a mostra pretende apresentar, Kátia Lopes prepara vasos azuis e com misturas de argila e Norma Marchetto grandes totens com estrutura em ferro e pequenas placas de cerâmica. Já Adriana Lopes, que residiu durante longo tempo em Juiz de Fora e agora mantém um atelier em Natal, no Rio Grande do Norte, apresenta um grande painel com peças redondas e, ainda, cubos e fusos feitos na técnica do Raku.
A mostra fica aberta para visitação de 7 à 21 de maio, de segunda a sexta, das 9 às 12h e das 14 às 18h, e aos sábados de 9 às 12h.
Mauro Morais