FABULÁRIO - OSVALDO CARVALHO

FABULÁRIO
Mariana Bretas

Em tempos de internet, cibercultura e virtualidades Osvaldo Carvalho atualiza as fábulas de Esopo. Nas telas de grandes dimensões o artista incorpora pequenos fragmentos de imagens, detalhes do cotidiano, palavras/enigmas através de camadas de cores, pensamentos, texturas e imaginação em sobreposições nem sempre aleatórias e inocentes. Visibilidades e invisibilidades se tocam, valores e humores se chocam.

Nesse espaço-tempo deslocado, a tela passa a ser o território do gesto, do movimento, dos encontros e desencontros, das aproximações e dos distanciamentos de sentidos e significados. A pintura de Osvaldo Carvalho não dá respostas, ela lança perguntas e instiga o observador a criar suas próprias narrativas dando a ele apenas vestígios, silêncios e vazios. Na tela o que se vê é um equilíbrio inusitado, com decalques de delicadeza, de um mundo real e imaginário, com histórias que não se esgotam nunca. Há sempre uma relação possível, uma surpresa a ser encontrada, um mistério a ser revelado, um fato a ser esquecido.

Quase como numa brincadeira de esconde-esconde, Osvaldo Carvalho joga com a memória em meio às ruínas contemporâneas. Como um arqueólogo de seu tempo o artista tenta encontrar o fio condutor do aqui e agora, do que já foi e do que está por vir. Osvaldo coleciona o mundo e, de uma forma aparentemente simples, convida aquele que vê a recriá-lo de uma forma íntima e pessoal e a levá-lo dentro.

"O que se passa aqui?", pergunta Roland Barthes diante da pintura de Cy Twombly, que a compara com o teatro italiano, onde "terminada a cena, recordamos: e já não somos os mesmos que antes." * Assim, Osvaldo Carvalho, com suas "loading paintings", constrói em Fabulário um lugar, ainda que desterritorializado, da convergência, da experiência e da transformação.

*Barthes, Roland. Sabedoria da Arte, in O Óbvio e o Obtuso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.