CARNE FRESCA|2013 - O tortuoso desafio da originalidade

Há uma distância desproporcional entre o que é novo e o que é inovador. Por novo pode ser entendido o que se encontra no início de um processo. Já inovador está muito mais relacionado a surgimento. Se um termo exige ruptura, prescindindo do que é velho, o outro se deseja despido do que não houve, alinhando-se à ideia de projeto, de futuro. Na quarta edição do projeto "Carne fresca", que a galeria Hiato - Ambiente de Arte desenvolve anualmente, dez jovens artistas se reúnem para questionar o contemporâneo sob a ótica do novo. Na exposição que inaugura hoje, às 20h, à pergunta do edital, "O que é novo?", diferentes respostas se organizaram, convergindo para uma conclusão há muito já especulada na cidade: a fotografia, como linguagem ou suporte, predomina na arte contemporânea local. "Acredito que a imagem fotográfica seja um grande destaque dessa edição. As novas tecnologias falam mais aos jovens artistas, e, nesse sentido, a fotografia preenche a lacuna deixada pela ausência da pintura", comenta Petrillo, artista e coordenador da galeria, que, ao lado da professora do Colégio João XXIII Renata Oliveira Caetano e da professora do Instituto de Artes de Design da UFJF Priscila de Paula, escolheu as obras em meio a 25 inscrições.
Segundo Petrillo, 60% das inscrições do edital correspondiam a trabalhos fotográficos, números que para ele apontam para uma coerência de Juiz de Fora com o cenário nacional, já que na última edição da Bienal, maior exposição coletiva do país, as fotos e os vídeos também eram predominantes. "Acredito que caminhamos novamente para a pintura. Fora daqui já vemos esse retorno em trabalhos de extremo apuro técnico e sofisticações", defende o artista plástico, certo de que as experimentações provenientes dos cliques se configuram em passo importante para a retomada dos pincéis.
Um dos destaques da mostra, apesar de não ser uma carne tão fresca - já que integrou outros editais -, Luiz Gonzaga investiga o novo em seu universo íntimo. Para ele, o novo é o uso da cor na própria obra. Além disso, o novo também é seu desejo por espaços maiores do que o cubo branco. Como um blefe, o artista exibe seus detalhados traços em muros e outros objetos urbanos. Porém, o blefe está na seguinte explicação: Gonzaga comprou um sketchbook (aquele caderninho onde os artistas esboçam desenhos e traços) onde as páginas não são brancas, mas exibem imagens dos tais muros. Em seguida, desenhou como se fosse grafitar para logo depois fotografar e emoldurar. No fim, ele expõe fotos, mas elas são apenas o suporte. "Tinha muita vontade de pintar em muros, e o caderno me trouxe essa experiência. Acredito que o grafite seja uma expressão extremamente forte hoje", aponta.
Para Rayane Ávila, que também perpassa pela pintura, sem a ela se ater, o processo e discussões cotidianas foram mais relevantes na produção de seu trabalho. Após pintar o rosto, a artista carimbou com a face um tecido por várias vezes. O pano, uma segunda pele, é exposto e, sobrepondo-se a ele Rayane exibe um registro em vídeo do processo. "O que é novo é mostrar o que me interessa. E me atenho ao corpo, à forma, à essa segunda pele e à maneira como a gente representa", explica. A obra, nesse caso, é o registro e o resultado do que foi registrado: "A questão da reprodução e da repetição tem a ver com a vida e precisava ser exposta". Além de Rayane, Paulo Stuart Angel (que também mostra uma instalação) e Rene Loui (que exibe um mosaico de fotos performáticas) se renderam à imagem em movimento.

Discursos bem elaborados
Como um vídeo, o tríptico de Gabriel Brisola reúne três espaços abandonados. "Esse trabalho tem uma narratividade, como se fosse uma busca por um lugar que não seja o vazio. Ele pensa o novo como uma outra visita às velhas coisas", explica, para logo completar: "Penso que revisitar o velho abre novos horizontes, permite uma mudança de percepção". Com capturas feitas em subexposição, as imagens se revelam extremamente poéticas, apesar das tintas soturnas. De acordo com Brisola, a geração a qual pertence procura a fotografia por ela ser o meio pelo qual os jovens mais circulam e o que oferece um acesso mais amplo. "Além de termos muito contato, também temos um desejo muito grande de subvertê-la. Os velhos modos de fazer fotografia já não correspondem."
Nesse sentido caminha Gustavo Machado, que exibe uma pequena caixa onde se encontra uma câmera antiga e um rolo fotográfico. A foto, ali, é presença, mas também surpresa. A fotografia é travestida e ao mesmo tempo desnudada pelo aparato técnico e arcaico. Em oposição, Thiago Correa exibe imagens com manipulação digital, o que as torna límpidas, mesmo que os sujeitos enfocados sejam como zumbis, com sangues e moscas. A leveza também é o ponto de partida de Tonil Braz e suas fotografias brancas, de papéis amassados ou sacos plásticos.
Em uma delas, um galho extremamente verde irrompe o material alvo. Já Ana Marina Coutinho expõe imagens de uma pessoa em momento de banho. O que também poderia resultar em placidez traz o desconcerto. Desfigurado, um rosto pressionado sobre o vidro molhado e abafado exibe caretas e transborda em desconforto. A foto, aí, é o recurso do cotidiano, mesmo espaço pelo qual transita Luciane Ferreira Costa. No díptico da artista, um livro com uma mensagem sobre esperança através do conhecimento é apresentado aprisionado com um fundo negro.
Ao ser acessada, a teia que o guardava é rompida, e o fundo precipita-se em branco. "A ignorância é a ausência do conhecimento e priva das ações. Queria mesmo era deslocar esse foco da obra acabada utilizando uma ideia conceitual", comenta, certa de que os outros frescos trabalhos também não resultam em matéria imediata. Como boa carne, merecem ser digeridos calmamente.
CARNE FRESCA
Abertura hoje, às 20h. De segunda a sexta, das 9h ao meio-dia e das 14h às 18h, sábados, das 9h às 13h. Até 31 de agosto
Hiato Galeria de Arte
(Rua Coronel Barros 38 - São Mateus)

por Mauro Morais - Tribuna de Minas