Tudo azul

Ao longo dos anos as paisagens se transformam.. O que antes era espaço vazio e insistia em manter o bucolismo das cidades interioranas, hoje dá lugar a um grande prédio. De forma semelhante, as distâncias se encurtaram. Longínquo anteriormente, o mar agora é quase o quintal de casa. A cena das artes locais também se embaralha por entre as grandes expressões nacionais. As temáticas, as técnicas, os artistas e suas criações já não respondem a um discurso espacial, visto que na era da virtualidade quaisquer barreiras podem ser ultrapassadas.. Instigando tais questionamentos, a Hiato – Ambiente de Arte se lança em metáforas para revisitar e reverenciar seus 10 anos de atividades. No próximo dia 3, sexta-feira, às 20h, a galeria abre a exposição Mar de Montanhas, que reúne obras do acervo e trabalhos inéditos de artistas que apresentaram suas obras ao longo dessa primeira década..

 
Atento ao seu tempo, o crítico e historiador da arte Michael Archer defende em seu livro Arte Contemporânea os constantes esforços de artistas e curadores para renovar as expressões. Segundo ele, “a arte é um encontro contínuo e reflexivo com o mundo em que a obra de arte, longe de ser o ponto final desse processo, age como iniciador e ponto central da subsequente investigação do significado”. Inspirada na ideia do encontro, Mar de Montanhas selecionou, em seu acervo, gravuras de Adriana Pereira, desenho de Guignard e pinturas de Carlos Bracher, Dnar Rocha e Renato Stheling. Representantes de gerações distintas todos transitam pelo contemporâneo e, em algum momento de suas produções, observaram as montanhas mineiras e as utilizaram em seus discursos. “Esses artistas e os trabalhos que apresentamos deles remetem à Minas Gerais consolidada e múltipla no universo da arte”, comenta Petrillo, coordenador da galeria e um dos idealizadores da mostra..
 
Ondas contemporâneas
Convidados a produzir obras inéditas e cuja temática deveria se relacionar com o mar, os artistas Eduardo Borges, Jorge Fonseca, Julia Vitral, Luiz Gonzaga, Nina Mello, Petrillo e Ricardo Cristofaro recorreram a diferentes sentimentos para conceber seus trabalhos. Para a fotógrafa Nina Mello o mar está intimamente ligado a sua infância, como desejo pueril pelo contato com as ondas. Por isso, a artista utilizou-se de um osso de frango, “ossinho do desejo”, e do azul do céu para falar tanto do mar quanto para representar os morros de Minas. Já o professor e artista plástico Ricardo Cristofaro, reconhecido escultor, lançou-se à fotografia, subvertendo-a por meio do vidro, que distorce a imagem e evoca um espaço de blindagem e ao mesmo tempo sugere particularidades e intimidades.
 
Hábil desenhista, lançado pela Hiato, Luiz Gonzaga trabalha com o mar na concepção de superlativo, e numa tela monocromática dispara um oceano de ideias, formas e padrões. Ceramista, Julia Vitral recorre ao sentimentalismo explorando formatos próximos a um coração, defendendo uma emocional ligação com o mar. Dono de um traço sensível, Eduardo Borges investiga a própria memória, que agrupa tanto a terra quanto o mar. Afeito às curvas de nível, tema percorrido por suas mais recentes pesquisas, Petrillo mapeia outras geografias tendo como princípio a leveza e a singeleza das ondas. Um dos mais experimentalistas do grupo, Jorge Fonseca, mineiro de Ouro Preto, recorre ao céu e à delicadeza do bordado para transfigurar a cena.
 
Diverso em técnicas, o eixo contemporâneo da exposição se alinha com a ideia de transposição das montanhas, apontando para novos aspectos sensíveis do que é ser mineiro. Ainda, o apelo ao figurativo retoma as discussões artísticas atuais, muitas delas defensoras das expressões abstratas em detrimento de opções pela figura. “A exposição defende as duas paisagens, o mar e a montanha, como definidoras de nossa identidade contemporânea”, explica Petrillo. “Acredito que a Hiato tenha, de alguma forma, modificado a paisagem artística de Juiz de Fora, por isso, entre o passado e o presente, optamos por comemorar o aniversário refletindo sobre a cena e fazendo poesia”, conclui.