Uma leitura com o frescor do contemporâneo

 “O que não parece vivo, aduba”, conclui a mineira Adélia Prado, em seu poema “Leitura”. Ao longo de 10 anos de atividades, a Hiato – Ambiente de Arte perseguiu diferentes expressões artísticas, sob assinaturas diversas, e, há três anos, investiga a produção contemporânea local por meio do edital Carne Fresca, que prevê a seleção de jovens artistas para uma grande exposição. O que ainda não era explorado pela cidade, aduba e renova as brancas paredes da galeria. Com frescor e sem a pretensão de mapear o contemporâneo, mas preocupados em exercitar uma leitura dele, os artistas Eduardo Borges, Petrillo e Ricardo Cristofaro selecionaram, este ano, 13 nomes para a mostra, aberta no próximo dia 18, sexta-feira, às 20h.

Sob a inspiração dos versos de Adélia – “Eu sempre sonho que uma coisa gera, nunca nada está morto” –, Ana Luisa Affonso, Camila Rezende, Cipriano, Filipe Matias, Frederico Lopes, Gabriel Patrocínio, Guilherme Melich, Gustavo Machado, Jefferson Steinner e Julia Milward, Letícia Vitral, Lilian Medeiros, Pedro Salim e João Carlos Ferreira, e Rodrigo Souza encontram-se na exposição, que à primeira vista sugere uma multiplicidade, logo convertida em unidade, seja pela frequente utilização de sobreposições, seja pelas referências emocionais nas quais as obras se baseiam.
Tomando as reflexões do filósofo e crítico de arte Arthur Danto, em seu livro Após o Fim da Arte: Arte Contemporânea e os Limites da História, o contemporâneo propõe, forçosamente, uma nova forma e leitura à arte. Os trabalhos selecionados, perecebem nas ideias de transformação e aposição, o espaço de discussão que lhe cabem. “Esses artistas debatem sobre o fazer artístico em duelo com o mundo, o espectador é muito relevante para essas obras”, aponta Petrillo, artista e coordenador da galeria, enfatizando a difícil tarefa de definir os nomes em meio às 22 inscrições obtidas esse ano. “Esses 13 selecionados conversam entre si. Há uma leitura interessante do que estamos fazendo no momento”, completa.
 
 
 

Letícia Vitral

Outras poéticas
Da pintura à instalação, passando pela fotografia e pelos objetos, a exposição propõe os variados suportes que servem às investigações atuais. A poesia, que servia como ponto de partida, se apresenta como resultado em todas as obras. No trabalho de Letícia Vitral, o portão de Brandemburgo, em Berlim, é reproduzido em diferentes camadas, como se pairasse pela capital alemã, atraindo visitantes e passantes. “A estaticidade não é estéril, e a derrota de funções e contextos do passado dá base e razão para mudanças no dia a dia contemporâneo, atestando um movimento inerente ao ato da espera”, discute a artista.
Já para Camila Rezende, resíduos industriais serviram-lhe de “tinta” para tingir a tela, que ainda esteve aos pés

Camila Rezende

 dos operários, numa proposta de quase “co-autoria” da obra. “A inspiração é um momento de um processo mais amplo, que envolve a colaboração de mais de um ato, produto dos esforços coletivos de trabalho e não uma criação individual”, defende. Numa poética semelhante, Cipriano, nome artístico adotado por Cristiano Rodrigues, utiliza-se de coadores de café usados e da borra do próprio café para refletir sobre a identidade mineira. “O que sempre vai produzir o sentido é o diálogo da atitude humana com as materialidades, texturas e cores dos objetos, tudo permeado e mergulhado na cultura e na experiência emocional de quem se dispõe a tomar a atitude de transformação”, questiona.
Das muitas poesias expostas, a certeza dos vários caminhos da arte juiz-forana. Das muitas inquietações presentes nas obras, a confirmação da arte como veículo de expressão individual e coletiva. Na terceira edição do Carne Fresca, mais uma leitura do movimento prolífico dos artistas locais. “A Hiato acredita nas novas gerações, acredita, como Adélia Prado diz, que tudo gera, nunca nada está morto”, conclui Petrillo.