Segredos vestidos: A intimidade como matéria-prima

Na segunda-feira, dia 31 de outubro de 2011 Priscilla de Paula escreveu no site 12 cadernos: “Conheci um homem e nele havia um letreiro luminoso piscante que me avisava não se apaixone por mim”. Ao anunciar o enlace, concluiu: “Nas minhas tentativas mentirosas de esquecê-lo, mesmo quando estou com outro em minha cama, visto esse homem como se ele fosse uma camisola transparente”. Como um aparente desabafo pessoal, o registro de Priscilla torna-se ficção no site que inaugurou em setembro de 2010. Tendo como matéria-prima a própria intimidade, a artista se revela, ainda que com algum pudor, nos desdobramentos de seus cadernos-diários, que ganham a forma de 20 aquarelas e três objetos sonoros, na exposição 12 cadernos, que a Hiato – Ambiente de Arte inaugura na próxima sexta-feira, dia 9, às 20h.

Professora do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (IAD/UFJF), Priscilla de Paula iniciou-se na temática confessional há mais de dez anos, ao inserir trechos de seus diários nas pinturas que fazia. Sistematizando os próprios escritos, que somam 11 cadernos – o que sugere ser o 12º a própria coletânea, ou, até mesmo, o vindouro – a artista decidiu-se por torna-los públicos a fim de incorporar um ambiente ficcional, além de potencializar a difusão dos textos. “Há também a jogada processual do trabalho, os textos vão sendo escritos e publicados ‘ad eternum’ e o formato de blog permite que os leitores naveguem e acompanhem o processo criativo”, destaca.
Em 12 cadernos, que fica aberta para visitação de 10 a 24 de março, o espectador será confrontado com 20 desenhos, feitos em aquarela e nanquim, nos quais Priscilla investiga as próprias relações amorosas. A artista também criou três objetos sonoros que se apresentam como grandes vestidos – todos vermelhos –, e de cujo interior é possível ouvir suas confissões, gravadas com sua voz. “Os vestidos são como se eu vestisse esses segredos. ‘Finalmente um véu’, disse minha mãe”, revela Priscilla, que em sua contemporaneidade transita por diversas linguagens, numa mostra de seus diferentes “modos de fazer”.
 
A arte como voz (ou alto-falante)
Num tom dolorido, Priscilla revelou em sua segunda postagem no site 12 cadernos: “Penso no que deixei na Espanha: minha casa, minha eternacomodidade, minha indiscutível solidão”. O tom melancólico e emocional evidencia sua perseguição artística: a arte a forma máxima de expressão. Na prática de sua poética artística Priscilla se distancia dos vícios acadêmicos para assumir a arte em seu terreno sensível, sem a pretensão e concluir, mas preocupada em tomar sua obra como voz, veículo de diálogo com o outro e consigo mesma. “As referências são sempre meus sentimentos”, defende.
Reconhecida por utilizar a própria vida como elemento de criação, a francesa Sophie Calle utiliza-se da realidade e do inesperado que dela provém para discutir questões universais como a situação das mulheres e a efemeridade das relações de amor. Performática, a sérvia Marina Abramovic cria na interação com o público, a experiência artística que ao mesmo tempo em que a liberta de uma situação íntima, propõe debates numa outra esfera. Já a norte-americana Nan Goldin registra cenas íntimas, retirando-lhes do caráter a sugestão para possíveis identificações.
Referências ou não de Priscilla de Paula, essas artistas confirmam a postura contemporânea assumida pela artista, que retira da própria exposição o caráter necessário a aproximação e ligação com o público. Consciente dos limites de sua intimidade, Priscilla não se revela por inteiro: “Dar-se conta do que podemos ou não dizer pressupõe pistas sobre quem sou eu na minha intimidade”, adianta-se, para em seguida finalizar: “Sim, há edição no que eu digo. Há coisas que não conto a ninguém, coisas que só conto ao meu namorado, coisas que divido com meus amigos...”.
 
Mauro Morais